A relação entre o intestino e o cérebro tem sido amplamente investigada nas últimas décadas, especialmente diante do aumento global dos casos de ansiedade e depressão. Evidências científicas demonstram que o intestino não atua apenas na digestão, mas exerce papel central na regulação do sistema imunológico, metabólico e neurológico, por meio da microbiota intestinal [1].
Esse sistema de
comunicação bidirecional, conhecido como
eixo
intestino-cérebro-microbiota, tornou-se um dos principais focos da
saúde integrativa e da prática ortomolecular, por permitir
abordagens que vão além do tratamento sintomático,
atuando diretamente nos mecanismos fisiológicos envolvidos no humor
e no comportamento.
O que é o eixo intestino-cérebro?
O eixo intestino-cérebro é uma rede complexa de comunicação que envolve o sistema nervoso central, o sistema nervoso entérico, o sistema imunológico e a microbiota intestinal. Essa interação ocorre por vias neurais, com destaque para o nervo vago, vias endócrinas, imunológicas e metabólicas[1].
Estudos demonstram que
aproximadamente
90 a 95% da serotonina
do organismo é produzida no trato gastrointestinal, especialmente pelas células
enterocromafins do intestino [1]. Essa serotonina intestinal estimula o
nervo vago, que envia sinais para regiões cerebrais associadas ao
controle das emoções e do comportamento.
Quando esse eixo está em
equilíbrio, há uma regulação adequada do
humor. Entretanto, alterações na microbiota, também
conhecidas como
disbiose
intestinal, comprometem essa
comunicação e favorecem o surgimento de sintomas de
ansiedade e depressão [2].
Microbiota intestinal e
modulação do humor
A microbiota intestinal é composta por trilhões de microrganismos capazes de produzir metabólitos biologicamente ativos. Entre eles, destacam-se os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) — como butirato, propionato e acetato — resultantes da fermentação de fibras alimentares [1].
Esses metabólitos exercem
funções anti-inflamatórias, auxiliam na integridade
da barreira intestinal e participam da regulação da
neuroinflamação cerebral, impactando diretamente o humor do
hospedeiro. Além disso, determinadas bactérias intestinais
são capazes de sintetizar neurotransmissores como
GABA, dopamina e
serotonina, influenciando o
comportamento emocional [3].
Diversos estudos relatam que
indivíduos com transtornos depressivos apresentam menor diversidade
bacteriana, com redução de gêneros benéficos
como Bifidobacterium e Lactobacillus, além de maior
abundância de bactérias pró-inflamatórias
[2].
Outro mecanismo relevante é a
relação entre a microbiota e o
eixo
hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA). A disbiose pode levar à
hiperativação desse eixo, aumentando a
liberação de cortisol e intensificando respostas ao
estresse, ansiedade e alterações de humor [3].
O papel da nutrição e da prática ortomolecular
Na prática ortomolecular, a modulação da microbiota intestinal é um dos pilares para o equilíbrio neuroimunoendócrino. Estudos demonstram que dietas pobres em fibras e ricas em alimentos ultraprocessados favorecem a disbiose, enquanto padrões alimentares ricos em vegetais, frutas, grãos integrais e leguminosas promovem maior diversidade bacteriana [1].
As
fibras
solúveis, como inulina,
frutooligossacarídeos (FOS) e galactooligossacarídeos (GOS),
atuam como prebióticos, estimulando o crescimento de
bactérias benéficas e aumentando a produção de
AGCCs [1]. Esses compostos estão associados à
redução da inflamação sistêmica e
à melhora dos sintomas de ansiedade e depressão.
Os
probióticos, quando utilizados de forma individualizada,
também demonstram efeitos positivos na redução de
sintomas depressivos e ansiosos, atuando como coadjuvantes no cuidado da
saúde mental [4]. Na abordagem ortomolecular, essa
intervenção é sempre personalizada, respeitando o
perfil metabólico, intestinal e emocional de cada paciente.
Psicobióticos: uma nova fronteira na saúde mental
O conceito de psicobióticos refere-se a probióticos, prebióticos ou simbióticos capazes de exercer efeitos benéficos sobre a saúde mental por meio da modulação do eixo intestino-cérebro. Estudos indicam que essas substâncias podem reduzir níveis de estresse, ansiedade e sintomas depressivos, além de modular respostas inflamatórias associadas aos transtornos do humor [2].
Embora ainda
sejam necessários mais ensaios clínicos em humanos, os dados
disponíveis apontam os psicobióticos como ferramentas
promissoras dentro de uma abordagem integrativa e ortomolecular da
saúde mental [3].
Referências Bibliográficas
[1] VIEIRA, T. R. H. Relação do eixo microbiota-intestino-cérebro nos sintomas de ansiedade e depressão com o consumo de fibras dietéticas: revisão de literatura. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2022.
[2] FERREIRA, V. L.
et al.
A
relação entre a microbiota intestinal e os transtornos
depressivos: uma revisão de literatura. Revista
Eletrônica Acervo Médico, v. 6, 2022.
[3] SANTOS, R. S.
et al.
Relação
entre microbiota intestinal e os distúrbios do humor e a
influência que a nutrição pode exercer sobre este
mecanismo: uma revisão sistemática. Research, Society and
Development, v. 11, n. 6, 2022.
[4] FRANÇA,
T. B. et al.
Efeitos
de probióticos sobre o eixo microbiota-intestino-cérebro e o
transtorno de ansiedade e depressão. Brazilian Journal of
Development, v. 7, n. 2, 2021.
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